- Fósseis descobertos na Praia da Galé pertencem a baleias com 10 milhões de anos
Fósseis descobertos na Praia da Galé pertencem a baleias com 10 milhões de anos
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Figura 1. Perspetiva geral da nova jazida fóssil encontrada nas rochas sedimentares do Miocénico de Grândola.
Os trabalhos de escavação paleontológica na praia da Galé – Fontainhas terminaram no final da semana passada. Após tomar conhecimento do surgimento de possíveis fósseis nesta praia, como consequência das remobilizações de areia durante as tempestades que assolaram o país (Fig. 1), o município de Grândola desencadeou todas as diligências necessárias para a sua salvaguarda, tendo solicitado apoio ao Museu da Lourinhã, instituição com vasta experiência na extração de fósseis de grandes dimensões. Assim, no dia 20 de fevereiro, decorreu no local uma reunião com as entidades oficiais: a Agência Portuguesa do Ambiente e a Capitania do Porto de Setúbal – Polícia Marítima, que logo reconheceram a importância do achado e deram autorização para que os trabalhos paleontológicos tivessem início. Desde então, uma equipa constituída por paleontólogos do Museu da Lourinhã, do Instituto Dom Luiz (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência e por técnicos do Município trabalhou neste processo numa corrida contra o tempo. Para o efeito, foi necessário proceder à escavação de emergência (Fig. 2 e 3) pois os fósseis encontravam-se numa zona entremarés, sofrendo os efeitos da ondulação, pondo assim em risco a sua integridade e exposição, devido à reposição das areias da praia que, entretanto, já se observava. Além disso, o acesso ao local, limitado pelas marés, implicou o desenho de uma complexa operação de escavação, conservação, acondicionamento e transporte dos fósseis.
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Figura 2. Trabalhos de escavação e mapeamento de um dos exemplares de baleia fóssil extraído nas arribas localizadas a norte da Praia de Galé – Fontainhas.
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Figura 3. Extração de uma pequena vértebra de baleia utilizando-se gesso para poder realizar a remoção do exemplar em segurança.
Com as tempestades ficou exposta uma laje de rocha sedimentar com mais de 100 metros de extensão, revelando uma impressionante diversidade de fósseis marinhos. Estas rochas pertencem à Formação de Alcácer do Sal, depositada durante o Miocénico, num ambiente marinho pouco profundo, mais precisamente entre o Serravaliano superior e o Tortoniano inferior, há cerca de 10 milhões de anos. Inserem-se no contexto da Bacia de Alvalade, uma bacia cenozoica que aflora na região do concelho de Grândola. Os fósseis identificados nesta localidade pertencem a vários grupos de animais pré-históricos. Entre os vertebrados, foram encontrados restos de baleias, golfinhos, tartarugas, tubarões, peixes ósseos e possivelmente aves. Identificou-se também uma fauna diversificada de invertebrados, incluindo bivalves, equinodermes, gastrópodes e numerosos balanídeos (conhecidos popularmente como cracas), além de abundantes icnofósseis, como galerias de bioturbação.
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Figura 4. Crânio de baleia e respetivas mandibulas, primeiros exemplares a serem removidos durantes a campanha de trabalhos paleontológicos de emergência, realizada na semana passada.
Destacam-se nesta importante associação fossilífera dois esqueletos parciais de baleias fósseis atribuíveis ao grupo Mysticeti, que inclui as atuais baleias de barbas — animais com placas de filamentos queratinosos, alternativos aos dentes, que permitem a filtração de grandes quantidades de alimento. Atualmente, este grupo inclui espécies como a Baleia-cinzenta e a Baleia-azul, o maior animal do planeta.
Um dos esqueletos é composto por um crânio e duas mandíbulas quase completas e algumas vértebras e costelas (Fig. 4). O segundo exemplar inclui um crânio quase completo, parte das mandíbulas, várias vértebras e costelas e possíveis ossos dos membros anteriores e da cintura escapular (Fig. 5). Preliminarmente, os investigadores consideram que estas baleias poderão pertencer à família Cetotheriidae, um grupo de baleias de pequeno a médio porte, relativamente abundante na costa portuguesa há cerca de 10 milhões de anos. Entre os exemplares já descritos em Portugal destacam-se as espécies Adicetus lactus, Adicetus vandelli e Cephalotropis coronatus, identificadas com base em fósseis encontrados nas arribas da península de Setúbal. O Miocénico de Portugal é particularmente rico em restos de baleias fósseis, com numerosos achados nas regiões de Lisboa e Setúbal, sobretudo na Bacia do Baixo Tejo. A jazida localizada a norte da Praia da Galé – Fontainhas constitui, assim, uma das associações fossilíferas mais relevantes identificadas na Bacia de Alvalade, podendo fornecer dados fundamentais sobre as faunas de vertebrados marinhos que habitaram esta região durante o Miocénico.
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Figura 5. Exemplar mais completo de baleia encontrado na jazida a norte da Praia de Galé – Fontainhas, incluindo crânio, mandibulas, várias vértebras, costelas e elementos da cintura escapular e membro anterior.
Os especialistas consideram ainda que estes dois esqueletos estão entre os mais completos de baleias fósseis do Miocénico em Portugal e entre os mais completos da Europa. O seu estudo poderá revelar informações essenciais para compreender melhor a evolução destas baleias primitivas, bem como a sua ecologia e modo de vida. Por fim, a caracterização detalhada da fauna de invertebrados presente nestes níveis permitirá reconstruir com maior precisão o ambiente marinho em que estes esqueletos foram depositados há milhões de anos.
Os fósseis encontram-se agora à guarda do Município de Grândola e serão, nas próximas semanas, transportados para o laboratório do Museu da Lourinhã. Aí terão início os trabalhos de preparação, conservação e estudo por parte da equipa técnica, garantindo o tratamento especializado que este tipo de património exige. Reafirmando o compromisso conjunto com a preservação e valorização do património natural, encontra-se em preparação um protocolo de cooperação entre as três entidades, com vista à investigação, divulgação e futura partilha deste importante achado paleontológico com a comunidade local e com a sociedade. Os trabalhos paleontológicos conduzidos na semana passada foram coordenados pela paleontóloga Carla Tomás (Museu da Lourinhã), pelo paleontólogo Pedro Mocho (Instituto Dom Luiz-FCUL e Museu Nacional de História Natural e da Ciência) e pelo arqueólogo Nuno Inácio (Câmara Municipal de Grândola) e contou com a participação de vários paleontólogos nacionais e internacionais (Fig. 6).
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Figura 6. Equipa de escavação no encerramento dos trabalhos paleontológico, constituída por paleontólogos do Museu da Lourinhã, do Instituto Dom Luiz (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e do Museu Nacional de História Natural e da Ciência e por técnicos do Município de Grândola.
Contactos:
Carla Tomás +351 917738887 alexandra.tomas@museulourinha.org
Pedro Mocho +351 936913898 pdmocho@fc.ul.pt
Nuno Inácio +351 916183090 nuno.inacio@cm-grandola.pt
